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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Elogio debochado.



Tudo começou num dia claro de céu azul. Tão azul que debochava da cor dos olhos dela.
Sem nuvens, ventilado, fresco, quente mas agradável. Perfeito para uma praia, sabe?

E lá estava ela, sentada na mureta da avenida que ía de uma ponta a outra da praia de sua cidade. Como chamam mesmo? Avenida Litorânea, certo? Beira-Mar? Pois é.

Ela levava uma rosa nas mãos - a cor realmente não importa. Os pés sujos de terra, com a calça jeans dobrada até o joelho, balançavam na pedra fria e escura que fora usada para construir aquele mínimo de civilização num antro da natureza. E quem disse que ela reclamava? Se era um antro de perdição, como diria sua avó, ela adorava sacanagem. Adorava ficar ali sem ter o fazer, fazendo o mundo inteiro sentir inveja de sua falta de compromisso. Seu único compromisso era com a felicidade.

O céu debochava, sorria. Ela sorria de volta e olhava o mar verde quebrar sobre a areia branca e fina.
Ela se perguntava se a praia era tão bonita em outros lugares como costumava ser ali. Se não fosse, uma pena para os outros lugares.

O vento derrepente derrubou da mão dela, derrubou na calçada, uma pétala apenas da rosa. O vento levou essa pétala para algum outro lugar. Algum lugar muito longe, imaginava ela.

Ela não se importou, ela se sentia completa.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Puta!

Minha garganta jamais vai se acostumar a falar teu nome de puta, o nome da vadia que és. Só sinto mesmo a tristeza de não poder de dar uns bons tapas na cara, de te fazer sofrer, chorar, resmungar, relinchar, brigar, gritar, chorar, gritar, chorar, gemer.


Não vês?





Não vês que minha raiva é o amor que cultivei e que tu pisou?



Não vês?

És realmente cega. Uma pena. Se enchergar pudesses, talvez visse. Talvez. Talvez olhasse o amor que te apedreja e te xinga. O amor que suja a boca limpa por tua causa.
Talvez tu visse.
Talvez sentisse o mesmo sentimento que sinto.
Talvez sinta parte dele quando eu deixar quente, com um tapa, esse teu rosto com maquiagem de puta.
Maquiagem da puta que és. Vadia. Vagabunda.

Que os autores perdôem este escritor magoado, mas essa história não pode ter um final feliz.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Feelings


Sinto a estranheza do teu gosto me descendo a garganta como uma colher do mais puro mel. Sinto estranho o teu cheiro, a mais perfeita combinação de essências no mais perfeito perfume francês que possa existir. Te vejo. Uma beleza estranha que me domina, que me contrai os orgãos, os sentidos, a pupila. Ouço tua suave voz falar-me ao ouvido palavras carinhosas, agradáveis e estranhas, xingamentos que me fazem sentir completo.
E então chega o ápice.
Toco-te no rosto, no cabelo, no pescoço. Desço pelo ombro, pelo peito e seguro teu braço. Seguro firme e te puxo pra perto de mim. Pra ser meu, teu corpo inteiro.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Beating and breathing


Minha maior vontade agora era ficar deitado sobre teu peito mais um pouco, sentindo e ouvindo tua respiração intercalada pelo batimento do teu coração. Ouvir tua voz e sentir meu peito aquecer quando você me olhava assim de lado. Queria ser especial, muito especial.
Queria ouvir mais um pouco de Legião ao teu lado. Queria mais um sinal de trânsito demorado. Ou até mesmo um rápido. Eu queria tua atenção, só ouvir tua voz me perguntando como me sinto. Só um pouco.

Sei que daqui uns dias vou estar me sentindo patético por querer tudo isso agora. Sei que, além de patético, vou deixar de te querer com a mesma facilidade que comecei. Eu nem te conheço. Só conheço a velocidade da tua respiração.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Valentina

Valentina saiu correndo pelo corredor com os cabelos presos em um belo e frágil coque. Chegando ao fim das paredes paralelas, onde um raio de sol vinha pela esquerda, iluminando sua face moreno-âmbar, virou para trás e soltou um sorriso que poderia ser descrito do meigo ao profano por qualquer padre ou pecador. Deixou cair um pedaço de seda bege que brincava entre os dedos e saiu correndo.
Não segui-la, não ser completamente submisso eram as única opções absolutamente impossíveis de cogitar.
Oscilaram os pés deste que vos relata, numa tentativa de seguir minhas vontades e manter-me longe da pecaminosa Valentina. Trôpego, tentou as minhas pernas dar um passo a frente e outro atrás, ao mesmo tempo. Encostei-me na parede do corredor para não desabar no chão, enquanto fitava o lenço que desejava amaldiçoar, sem forças de fazê-lo.
Balbuciei seu nome tão baixo que nem minha alma poderia ouvir qualquer fonema da minha voz:
- Va. Len. Ti. Na.
A razão então tomou conta de mim. Valentina é tão proibida que jamais poderá ser minha...

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