sábado, 25 de outubro de 2008

Vá tomar um Nescau.

Eu estava na aula de Filosofia, numa terça-feira, dia 19 de Agosto. Recebi uma ligação da minha mãe e até fiquei envergonhado pois meu celular começou à tocar alto no meio da sala. Saí da sala e fui atender, ela perguntou se eu poderia ir lá em baixo falar com ela, eu pedi para esperar o intervalo e ela me falou que não poderia. Nem me toquei que era sobre minha avó, até q a voz da minha mãe vacilou um pouco, como se chorasse. Fiquei apenas receoso e desci correndo.
No meio do caminho o meu celular tocou de novo, atendi pensando que era minha mãe. Não era. Minha madrasta estava me ligando pra perguntar justamente da minha mãe, foi aí que a ficha caiu. Minha madrasta odeia minha mãe e jamais iria querer falar com ela.
Quando cheguei na recepção, que vi os olhos da minha mãe cheios de lágrima, não tive outra reação. Desabei chorando. Lembro de tudo como se fosse um filme, tudo se repetindo, como se eu estivesse fora do meu corpo na hora.
Me encostei em uma parede e passei o celular pra minha mãe. Só naquela hora que ela estava sabendo que minha avó havia falecido.
Já não adiantava, eu tava jogado no chão, chorando, me desgüelando. Sem acreditar. pedindo pra me falarem que era mentira. "É mentira, me diz que não é verdade, por favor, me diz que foi só um engano", eu falava.
Não sei o que me levou à isso, mas comecei à arrancar meu cabelo com as mãos. Eu arrancava chumaços e mais chumaços, não conseguia sentir dor nenhuma e continuava à arrancar.
Peguei minhas coisas ainda sem acreditar que era verdade e fui para o carro, me levaram para o hospital, onde eu a vi, deitada sobre uma maca, enrolada em um saco, desses de defunto mesmo, cinza, sem vida. Minha avó tava completamente nua, com as mãos amarradas de qualquer jeito e os pés idem. Nem parecia que ela estava num hospital onde passou toda sua vida em trabalho voluntário, onde todos a conheciam.

Não aguentei. Caí no chão, de joelhos, ainda arrancado cabelo, não sentia minha cabeça, não sentia nenhuma parte do meu corpo. Só o que quis fazer foi dar um grito. Só um grito. Queria acordar a cidade toda pois a mulher que mais amei na vida, se duvidar até mais que minha própria mãe, havia partido e me deixado aqui, sozinho.

E gritei...
"AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH"
Gritei e sinto minha garganta tremendo desse grito até agora.
Acho que queimei todos os hormônios que existiam no meu corpo por uma semana inteira. Passei uma semana sem chorar, nem no enterro chorei, pelo contrário, sorri. Me martirizei sorrindo, tentando embutir um pensamento de que ela não iria querer me ver chorando. Passei uma semana com os lábios grampeados num sorriso mais amarelo que um girassol.
Na missa de sétimo dia dela, desabei, não aguentei ao ler um trecho qualquer lá, que nem lembro qual é, chorei. Chorei muito, na frente da igreja inteira, lotada.
De lá pra cá, choro por qualquer motivo. Uma faca caiu no chão e eu lembrei dela? Lágrimas. Passei por debaixo de uma árvore e lembrei dela? Choro. Ouvi uma piada que iria querer contar pra ela? Desabo.


Sinto mais falta dos momentos que eu passava do lado dela que de fato dela. Sinto falta da possibilidade de contar algo legal pra ela. Algo que eu ouvi na faculdade, algo que li na internet. Algum vídeo engraçado que vi. Eu adorava mostrar isso tudo pra ela. Adorava ler textos do meu blog. Lembro dela arregalando os olhos de felicidade de saber q eu tava escrevendo tão bem. Lembro dela chateada por que eu havia escrito um texto triste. Ela sempre me quis feliz.

Dói.
Dói no coração.
Dói muito.
Dá vontade de morrer.
Dói tanto que chego à sentir a dor fisicamente. Dói tanto que não consigo sentir mais nada, nem dor de cabeça, nem fome, nem dor nos olhos, nem nada.
Eu só queria ela de volta. Mais um minuto, mais um segundo sequer. Só mais um milésimo de segundo.

Nunca sonhei tanto quanto de março pra cá. Desde que meu avô morreu, já sonhei com ele mais de 20 vezes, com minha avó sonhei algumas, e com os dois juntos, outras várias.
Sempre acordo com aquela mesma sensação que tenho quando sonho que tenho dinheiro, aquela vontade de não ser só sonho.
Na verdade, a vontade é que isso que se passa agora seja só um pesado, do qual vou acordar à qualquer instante com minha avó brigando por meu quarto estar bagunçado, por eu ter deixado toda a minha roupa jogada no chão e me mandando ir tomar um nescau.

Desculpem por tantas letras. Só queria desabafar.

9 arquitetura(s) alheia(s):

Ruth Connors disse...

"Uma faca caiu no chão e eu lembrei dela?"


dá pra entender...

meus olhos marejaram, eddie.

errei na mosca disse...

Também morro de saudades da minha avó.
Ela teve um AVC e eu a carreguei na hora, eu e meu pai.
Traduzindo: ela morreu nos nossos braços. Eu e meu pai carregando ela na cadeira.

É uma triste lembrança que dói no peito. Mas o certo é uma coisa: com o tempo, tudo passa. Absolutamente, tudo passa. Só fica a saudade.

ImaGINE disse...

Ai Duh, essas faltas ngm supera, juro q pude sentir um pedacinho da tua dor com esse texto...
tu deves mesmo ser um motivo de orgulho pra ela, sempre e sempre...
menino precioso

aqui rpa qualquer coisa

beeejo

Mariany Carvalho disse...

Realmente, é bastante difícil de lidar com essas perdas. Forças, você supera.


Abraços

erika disse...

Vc pode, meu querido, desabafar o quanto quiser.
Vc sabe que pode. E eu tbm te quero feliz, e vc ficará.

acho que sim, penso que não disse...

Olá,
Estou de passagem pelo seu Blog, mas não nos conhecemos!
Você traduziu, com clareza, tudo o que sinto quando lembro da minha querida mãe.
Essa sensação estranha - a vontade de morrer junto, de chorar em situações que ninguém vê a menor ligação, o sonho real, a dor maior que existe - é tudo o que sinto!
Não adianta ninguém consolar, cresce, cada dia mais.

Só vivendo pra crer, né?

Gabriela Castelo disse...

Perdas são coisas que nos marcam. Porém um papel, um lápis, um choro, alguns dígitos no computador... amenizam porém não apagam uma dor.

Texto espetacular ;)

PARABÉNS!

Juliana Castelo disse...

Nossa com eu me sentir na tua pele ao ler esse post! Espetacular! bravo... escreves perfeitamente bem!

Annie Adelinne disse...

Uau!

Tanta emoção em forma de palavras... por um momento fiquei atordoada!

Excelente texto.

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